Inspiração - Depoimentos

Marcos Abe
Advogado e gestor

Cresci numa família de classe média que valorizava o estudo e a disciplina. Optei por cursar Direito e tinha um plano bem traçado desde o início da faculdade. Finalizar o curso, fazer um L.L.M. (pós graduação) numa faculdade americana de ponta, entrar para um grande e renomado escritório.

Depois do ingresso na faculdade de Direito da USP, tudo deu errado. Meu pai faliu e entrou em depressão. A família sofreu por falta de recursos e pela sensação de insegurança. No primeiro ano da faculdade decidi trabalhar como estagiário, dar aulas de inglês e de reforço escolar e me virar para ajudar nas despesas do lar.

Refraseando, tudo deu certo. Graças a esse revés descobri meu espírito empreendedor, aprendi a agir em situações das mais diversas, as aulas me ajudaram a falar em público para diferentes grupos, e me colocaram em contato com diversos empresários estrangeiros expatriados que me ensinaram muito pela diversidade de informações e de repertório cultural.

Minha carreira como advogado cresceu gradativamente e pude abrir meu próprio escritório, junto com meus sócios, em 2.007. Hoje faço o que sempre desejei. Atuo como advogado em questões complexas que muitas vezes envolvem várias jurisdições, tenho liberdade para exercitar meu espírito empreendedor, conheço pessoas e culturas diferentes e conto com o suporte de advogados associados altamente gabaritados e engajados.

Penso em minha carreira não como algo dado, mas como algo conquistado. Certamente não é fruto de um planejamento bem sucedido, mas da capacidade de superar obstáculos, exercitar coragem, disciplina, perseverança e empreendedorismo.

Quais orientações você daria para que um profissional liberal como você consiga equilibrar as atividades de gestão de seu negócio e continuar no exercício da profissão escolhida originalmente que é o Direito?

1 - Tenha coragem para responder a seguinte pergunta: Desejo ser um gestor que pratica seu ofício liberal ou um profissional liberal que precisa também gerir? A resposta é fundamental para definir seu foco.

2 - Depois de refletir sobre seu desejo, conheça suas competências. Não o que você deseja, mas sim o que você detêm em termos de capacitação, perfil e personalidade.

3 - Compare seus desejos com suas competências e desenhe um plano de negócios. Caso não tenha recursos para elaboração de um plano de negócios, é possível encontrar muita literatura boa sobre o assunto. Caso você seja versado na língua inglesa, recomendo os livros do David Maister, referência em negócios de prestação de serviços de profissionais liberais. Se o plano de negócios não der certo, não desista. Durma uma noite e acorde no outro dia pronto para se levantar, aprender com os erros e disposto a acertar.





Ricardo Carrano
Professor Universitário

Me formei em engenharia de telecomunicações pela UFF (Universidade Federal Fluminense) em 1995, quando já estava trabalhando na emergente indústria de provimento de acesso à Internet. Permaneci no segmento, atuando como gerente e consultor durante alguns anos, até iniciar uma empresa de comunicação digital que começou desenhando web sites e acabou gerenciando a presença de algumas das grandes corporações nacionais na Internet. Após dez anos como empreendedor (comunicação, cursos e telecomunicações), comecei minha carreira acadêmica. Fiz mestrado em engenharia de telecomunicações e doutorado em computação. Nesta nova fase, trabalhei em uma ONG internacional (OLPC, sediada em Boston), dei cursos por todo o Brasil e participei de projetos de pesquisa. Tornei-me professor universitário, na UFF, em 2010, onde permaneço.

O que te levou a optar por uma carreira acadêmica? Quais as competências necessárias para desenvolver uma carreira nessa área?

Foi a novidade, o desafio. Precisava experimentar algo novo e achei que poderia me enquadrar bem na carreira. E penso que foi uma decisão acertada. A academia te mantém em contato com o futuro, com os jovens, e te desafia intelectualmente. Quanto às competências, hoje, espera-se do professor das universidades públicas que seja competente em três áreas: o ensino, a extensão e a pesquisa. É um desafio, pois são áreas bastantes distintas. Há que se mesclar a introspecção da pesquisa com a extroversão da sala de aula. É preciso saber guiar os orientados, ajudá-los a alcançar seu potencial em teses e dissertações que têm prazo para nascer. É necessário aprender a conviver com colegas, formando redes de pesquisadores dispostos a aplicar seu conhecimento acadêmico em problemas importantes: aqueles que visam o bem-comum. Em síntese é mandatório gostar de livros e de pessoas e manter a mente aberta. A tradição da academia, do pensamento livre, do esforço pela compreensão do mundo, e da troca de experiência e conhecimento, é um belo construto humano.